“Um dia faço um retiro espiritual” – Relato completo da minha passagem pelo Projeto Mindfulness

“Um dia faço um retiro espiritual”, disse eu, tantas vezes. Já há 2 ou 3 anos que praticava meditação, lia livros de mindfulness e desenvolvia um súbito interesse neste campo. Um retiro silencioso parecia ser o auge desta minha veia espiritual. Nos últimos anos fui pesquisando sobre retiros, locais, preços e condições e a vontade de fazer um foi crescendo em mim. Assustava-me, sou sincera, mas gosto de me desafiar. Não a nível físico, mas a nível psicológico, mental.

Assim que a viagem estava definida fiz então uma pesquisa mais séria sobre retiros e em algum post de Facebook, alguém me sugeriu o Projeto Mindfulness. Com os contactos apontados fiz-me à estrada e a viagem começou. E quantas mais pessoas encontrava, mais lhes perguntava sobre esta minha ideia, se já tinham feito, o que é que achavam, etc. As opiniões não foram as melhores. A maioria dizia-me que este tipo de retiros em templos budistas não passava de um show-off turístico e que, se queria mesmo fazer um a sério, deveria encontrar um num local remoto, de modo a ter uma experiência realmente autêntica. A viagem foi-se fazendo e, mais ou menos uma semana depois de ter chegado ao Laos, comecei a ponderar marcar a minha estadia. Olhei para o mapa, analisei os contactos que tinha e o Projeto Mindfulness foi o que me pareceu a melhor ideia. Fazia o Laos e, chegada à capital Vientiane, tinha só que rumar a Khon Kaen, numa viagem de autocarro de 6h. O visto para a Tailândia era gratuito e ainda tinha duas entradas terrestres que podia fazer, portanto tudo parecia encaixar. Marquei a minha estadia para dali a 1 mês, sendo que no entretanto ainda faria voluntariado em Vang Vieng.

O tempo foi passando e, mais ou menos uma semana antes, comecei a pensar melhor no assunto. Falei com os meus amigos, com o pessoal do voluntariado e com o pessoal que ia conhecendo sobre esta minha ideia. Nenhum me disse “Que cena altamente, também curtia bué fazer isso”. Ao invés, todos me diziam,

“Acordar às 5h30? Ficar em silêncio? Isso não dava para mim.”

Ok, aqui o meu receio começou a crescer. De uma maneira geral, tinha medo de não me conseguir adaptar. Só haveriam 2 refeições vegetarianas por dia (o que não seria assim tão mau se eu gostasse de legumes), 5h de trabalho voluntário por dia em permacultura (logo eu, que detesto fazer trabalho físico, principalmente ao sol), silêncio entre as 5h30 e as 8h30, até à hora do pequeno-almoço (vou mesmo ficar 3h em jejum?!). Tudo isto eram dúvidas e receios que pairavam na minha cabeça. Deixei-me andar e cheguei a Khon Kaen 3 dias antes de dar entrada no Projeto. Khon Kaen é uma cidade grande, sem turismo, e por isso fiquei quase 3 dias sem falar com ninguém, no único hostel da cidade (“Que bom treino estás a ter”, pensei). Fiquei meia deprimida durante estes dias, foi demasiado tempo para uma cidade que não tinha nada para oferecer. Num destes dias apanhei um taxista que falava bem inglês e que costumava levar pessoas para o Projeto e perguntei-lhe logo qual era o feedback da maioria das pessoas,

“Há quem goste, há quem deteste, chega lá e vê”. Mas que bom presságio!

Chegou o dia, comprei 10 pacotes de bolachas para matar a fome (mesmo à tuga!), arranjei um taxista que me levasse e lá fui. Durante a viagem desinstalei as redes sociais. Não que fosse obrigatório fazê-lo, mas dado que tenho uma presença nas redes sociais maior do que a maioria das pessoas, achei que não faria sentido fazê-lo de outra forma. Deixei o WhatsApp, para falar com a minha mãe. Durante a longa viagem até lá o taxista tentou ser amável e colocar músicas ocidentais até que calhou de meter a Lonely, do Akon. Mas há melhor música para ouvir antes de fazer um retiro espiritual?! Estava nervosa e irrequieta.

Lá chegamos. Quem me conhece sabe que o meu grande medo são os cães. Já fui muito pior, é verdade, mas ainda assim um dos meus maiores medos é deparar-me com um cão sozinha no meio da rua. Assim que chegamos tínhamos 8 cães a rodear o carro e a ladrar. Nesse momento pensei “Ok Patrícia, esquece, isto não é para ti.  Não tens de fazer isto, se não te sentes confortável podes ir embora”. O taxista lá tirou as minhas malas e veio buscar-me. E eu fui. Estava lá algum pessoal a ler e a conversar e, no meio, estava a Lilly, uma rapariga alemã que tinha estado comigo no voluntariado em Vang Vieng. Já sabia que ela lá estava e foi uma espécie de “paninho quente” saber que, pelo menos, já conhecia alguém. O pessoal introduziu-me o espaço, arranjaram-me uma cama e explicaram-me que estavam no tempo-livre e que teríamos reunião às 18h. Tudo bem, arrumei as minhas coisas e comecei a simpatizar com o pessoal. O Kee, um alemão, disse-me, “No início vais achar estranho porque as pessoas estão sempre a abraçar-se, mas depois vais gostar”. E achei mesmo estranho, o pessoal do nada começava a abraçar-se, sem dizer nada, simplesmente davam um abraço. Mas ok, não era nada por aí além.

Às 18h fui então para a área comum e chegou o Chris, fundador do Projeto, que me explicou, a mim e a quem tinha chegado no mesmo dia, o que iríamos fazer. Era hora do talking circle, momento diário em que todos se reuniam e respondiam a duas perguntas: uma delas sobre qual havia sido o melhor momento do nosso dia, dado que a nossa mente tem tendência a arquivar mais facilmente memórias negativas do que memórias positivas; e uma outra pergunta, relativamente profunda. Era suposto que respondêssemos a primeira coisa que nos viesse à cabeça, dado que essa é, geralmente, a resposta mais honesta. Ok, comecei a ficar entusiasmada. A segunda pergunta nesse dia era, “Qual é o teu objetivo na vida?”, “Ui, foram logo tocar no ponto”, pensei. As pessoas foram respondendo e, quando chegou a minha vez, tentei ser o mais sincera possível: “Olá sou a Patricia e sou portuguesa. O melhor momento do meu dia foi ter falado com pessoas pois já estava há 3 dias em Khon Kaen sem ter conhecido ninguém que falasse inglês. Quanto ao meu objetivo de vida, neste momento não sei qual é. Desde os meus 8 anos de idade que o meu objetivo é ser cientista e ganhar o prémio nobel. Tornei-me cientista, mas não ganhei o prémio. Há mais ou menos um ano e meio a minha vida deu uma volta de 360 graus e uma má experiência profissional fez-me afastar desse objetivo. Agora estou em processo de mudança e não sei o que quero. Decidi parar e encontrar as minhas respostas a partir desta viagem.”. Num dos dias seguintes tínhamos de elogiar a pessoa que estava ao nosso lado direito e o elogio que recebi foi do João António, que me disse que o facto de ter feito uma pausa na vida e de me estar a tentar descobrir, era um bonito ato de amor-próprio. No final do talking circle tivemos uma pausa de 15 minutos e depois uma aula, neste dia sobre neuroplasticidade positiva.

Adorei a aula e fui para a cama pesquisar mais sobre o assunto, eram exatamente estas temáticas que me atraíam. Estava a começar a gostar!

No dia seguinte, 5h30 da manhã e toca o gongo, era hora de acordar. Não sei se era por estar mais entusiasmada ou não mas acordei cheia de pica para o que aí vinha. Arranjei-me (pôr lentes de contacto na escuridão da selva às 5h30 da manhã não é nada fixe) e, às 6h da manhã, lá fui para a aula de yoga. Não sou nenhuma pró em yoga, fiz algumas aulas experimentais na minha cidade, mas tinha muita dificuldade em coordenar os movimentos com a respiração. Fiz o melhor que pude. Pouco depois da aula começar assistimos, por entre movimentos de yoga, ao nascer do sol. E esta era uma das melhores partes do dia. De manhã estava geralmente frio, e sentir os raios de sol quentes na cara deixava-me com um sorriso no rosto. Já tinha valido a pena acordar tão cedo.

O nascer do sol, por volta das 6h20 🙂

Depois do yoga vinha então a meditação guiada, com o Chris, por cerca de 30 minutos. Esta era para mim a parte mais fácil pois já tinha alguma capacidade de concentração e então era só deixar-me levar. Findada a aula, o Chris falava enquanto nós nos mantínhamos em silêncio. Fazia a distribuição das tarefas diárias que deveriam ser feitas em Karma Yoga. O objetivo era que as fizéssemos com a máxima atenção possível, tentando compreender que sensações/emoções eram despoletadas em nós: se estivéssemos a preparar o pequeno-almoço deveríamos sentir o toque da fruta, sentir o seu cheiro, apreciar a sua cor, etc; se estivéssemos na jardinagem deveríamos observar as plantas, ouvir a água do regador a cair, sentir o cheiro do jardim, e por aí fora. No meu primeiro dia, como ainda não tinha percebido bem o funcionamento daquilo, deixei-me para último e fiquei com a jardinagem.

Uns 30 minutos depois toca o gongo, era hora do pequeno-almoço. Mas, antes de comer, havia ainda uma cerimónia de agradecimento. Fruta, ovos, muesli, leite de coco, o pequeno-almoço era completamente delicioso, acho mesmo que era o melhor que já tinha tomado na vida. Talvez isso se devesse ao facto de o estarmos a comer em silêncio. Sem telemóveis, sem distrações, sentados no chão. A refeição tornava-se longa e cada pedaço de fruta era realmente saboreado (“Tenho de começar a fazer isto em casa”, pensei todos os dias). Depois do pequeno-almoço era hora de romper o silêncio.

Está cientificamente comprovado que um abraço durante mais de 12 segundos liberta hormonas de serotonina, a hormona da felicidade, e por isso era desta forma que começávamos o dia. No meu primeiro dia abracei a Isis, uma inglesa de 27 anos, e, embora pensasse que pudesse ser estranho, não foi. Foi muito mais natural e espontâneo. E fez-me sentir bem.

O próximo passo era então a divisão das tarefas para as 5h de trabalho voluntário que se seguiam e que poderiam ser preparar o almoço, preparar produtos naturais (shampoo, repelentes, barras de granola, etc), ou ajudar na construção da nova casa de banho do Projeto. Como não gosto de cozinhar, fiquei sempre nesta última. Basicamente tínhamos de cimentar as paredes com uma mistura de lama e cascas de arroz, que também nós fazíamos. Era pôr a lama na parede e alisar tanto quanto possível. Um pouco cansativo, é verdade, mas nada por aí além.

Aqui está, a arte de alisar paredes, ou “plastering”, como lhe chamávamos lá.

Não era lá muito fixe fazê-lo ao sol!

Se não estivesse neste contexto tenho a certeza que odiaria fazê-lo. Mas depois de uma aula de yoga e de meditação e depois de tanta troca de energia positiva, fazia-o com prazer. Tentava dar o meu melhor e por entre conversas e risos com o pessoal as 5h lá passavam num instante. Às 14h tocava o gongo novamente, era hora do almoço e também hora da possível última refeição do dia. E esta era uma das partes que mais me assustava pois não gosto de legumes e por isso não fazia ideia com o que raio me haveria de manter durante 10 dias. Com uma pratada de arroz, concluí logo no primeiro dia.

Cozinhar para 30 pessoas também não era pêra doce!

E assim foi, e até não era mau. Mais uma vez, provavelmente devido ao ambiente envolvente, a refeição sabia-me bem e nunca senti falta de comer carne.

Tanto que o pessoal gozava comigo e me dizia que iria sair dali vegan e a gostar de cães. Não aconteceu!

Depois do almoço, entre as 15h e as 18h, era tempo-livre o que significava hora de tomar banho e tempo para relaxar. O banho poderia também parecer um pesadelo, já que seria banho de balde, completamente ao ar livre. Mas, mais uma vez, depois de 5h de trabalho na lama sob os 32 graus abrasadores da Tailândia, não havia nada melhor que um bom banho de água fria! No resto do tempo podíamos ficar por lá a relaxar ou podíamos ir até um café na vila mais próxima, a 10 min a pé, onde havia wi-fi e bolos. Quase sempre íamos até lá. Na impossibilidade de usar redes sociais estive 10 dias a passar o Pinterest a pente fino! Às 18h era novamente hora do talking circle.

Outra atividade interessante de se fazer no tempo-livre: lavar a roupa!

Os dias foram passando e a rotina era sempre esta. Eramos cerca de 30 pessoas e viver com tanta gente geralmente não é fácil. Já todos nós fomos de férias com amigos, já estivemos em acampamentos e sabemos bem como funciona. Eu própria havia estado num projeto de voluntariado com 20 pessoas duas semanas antes. Porém, aqui, isso não era de todo uma dificuldade. E creio que isso acontecia porque desenvolvíamos empatia mesmo com quem não conversávamos tanto. Eramos 30, chegamos a ser 50! É impossível sermos muito amigos de toda a gente e, invariavelmente, vamos aproximarmo-nos mais de uns, em relação a outros. Contudo, aquilo que sentia é que, ainda assim, havia uma empatia maior entre todos. Provavelmente por todos nos abrirmos e nos ouvirmos durante o talking circle. Ou seja, eu não falava tanto com uma determinada pessoa, mas sabia a história dela, sabia quem ela era por dentro. E isto afasta todo o tipo de julgamentos, rótulos e formação de grupos que muitas vezes acontecem em meios com muita gente.

Havia, de forma geral, um espírito de comunidade e de bem-estar.

Chorei muitas vezes durante este tempo, quase sempre antes do pequeno-almoço, durante a aula de meditação. Tenho tendência a ser maldisposta de manhã antes de comer e aqui percebi que talvez isso aconteça porque sou extremamente sensível de manhã. O mais pequeno pensamento, a mais ténue memória tinham um peso incrível e facilmente me faziam chorar. A dada altura o pessoal já me perguntava se já tinha deitado a lágrima naquele dia. Percebi que, talvez essa rudez matinal seja uma espécie de barreira pessoal à minha própria sensibilidade. Este foi um dos passinhos que dei na minha autodescoberta pessoal. E este Projeto foi muito isto, fazer-me entender quem eu realmente sou.

Num desses dias estava mesmo sensível e desisti da aula de yoga uns 15 min depois, andei para lá a vaguear e faltei também à aula de meditação. 3h em jejum a dar voltas ao mato deixaram-me chateada e deprimida. Só tinha mais 4 dias no Projeto e queria aproveitar os últimos dias. Estava chateada porque deveria ter ficado na aula e desisti. Depois do pequeno-almoço perguntei ao Chris se poderia não fazer o trabalho, e tirar a manhã livre. Ele, como sempre, acedeu. Isto era algo passível de se fazer, o mais importante aqui era que nos sentíssemos bem. E todos nós precisamos, por vezes, de estar sozinhos. Peguei nas minhas coisas e fui para uma casa na árvore relaxar. Tentei meditar por uns 15 minutos e depois comecei a escrever. Escrevi, escrevi e escrevi quase sem parar, nem pensar. Apenas exorcizando em palavras tudo o que me estava a passar na cabeça.

Já há muito tempo que lia sobre desenvolvimento pessoal e mindfulness e havia sempre algo que não identificava em mim: julgamento e autoculpabilização. Sempre achei que não me julgava, dado que até tenho a natural tendência de me achar boa naquilo que faço. Por outro lado, sei e sabia que sou muito exigente, demasiado exigente, para comigo e para com os outros. Ponho sempre um grande peso em tudo o que faço, e tudo tem que ser feito com regularidade, consistência e perfeição. Disto eu já sabia. O que eu não sabia era que me julgava e me culpabilizava de cada vez que não cumpria aquilo a que me propunha.

E aquilo que eu estava a fazer nessa manhã era a julgar-me por ter faltado à aula.

Afinal eu tinha decidido que tinha de ir às aulas todas, todos os dias, e isto é ser demasiado exigente. E não tinha de ir, não estava na escola. Eu só tinha de fazer aquilo que me fazia sentir bem em determinado momento. E se isso implicava faltar a esta aula ou àquela aula, qual era o problema? Não fui hoje, vou amanhã, simples. E não há nenhum problema nisso. Foi durante esse longo processo de escrita que percebi isto. E um momento que começou por ser uma péssima parte do dia acabou por se tornar num momento em que me conheci um pouquinho mais. Foi mais um passo neste processo de autodesenvolvimento. E como estes exemplos, muitos outros aconteceram ao longo destes 10 dias. E não eram forçados, surgiam naturalmente, muitas vezes sem a intervenção de ninguém. Todo o ambiente de abertura e de empatia ajudavam-me a abrir-me para comigo própria e a perceber o que vai lá no fundo.

Muitas vezes nos dizem “Ouve o teu coração”, e nós pensamos, “Mas eu sei lá que raio é que o meu coração me diz”. Era esta conexão interior que era estimulada aqui.

Para mim a melhor parte do dia era sempre o talking circle. Adoro este tipo de perguntas complicadas, que nos deixam a pensar. E este era também um dos momentos mais emotivos do dia. Muitas pessoas por vezes choravam e partilhavam as suas mágoas e os seus medos. Mas o mais engraçado era que a honestidade que essa pessoa demonstrava nesse momento era contagiante, e a pessoa seguinte acabava por se abrir ainda mais, e por aí fora. Em alguns dias tivemos talking circles bem emotivos. Era também engraçado reparar como as minhas próprias respostas, ao longo dos dias, iam ficando mais longas e mais espontâneas. Deixavam de existir barreiras, máscaras ou medos.

Num dos dias a segunda questão implicava dizermos aquilo que mais gostávamos em nós. Uma pergunta difícil, mas, depois de encontrada a resposta, era surpreendente apreciar como também nós nos identificávamos com as respostas dos outros. Se no início ficámos 10 ou 15 segundos sem saber o que responder, no final já tínhamos uma lista de 5 ou 6 características. E o engraçado disto é que este autoconhecimento era feito a partir do autoconhecimento dos outros. Portanto o contacto com os outros servia também para nos conhecermos melhor, fosse por identificarmos pontes de contacto com os outros pois “também eu sou assim”, fosse pela diferença e por percebermos que “não sou nada assim”.

No meu último dia o Chris não estaria lá para fazer o talking circle e perguntou-nos se alguém se queria oferecer para o fazer no lugar dele. Levantei logo o braço e fui a escolhida!

A pergunta que escolhi fazer foi “Que coisas atingiram este ano pelas quais se sentem mais gratos?”.

Era o meu último dia e disse tudo o que me vinha à cabeça de forma honesta, sem filtrar o que dizia. Foi o meu maior talking circle. No final 5 ou 6 pessoas vieram agradecer-me pela minha talk, tinham gostado muito de ouvir a minha história. Uma delas disse-me “obrigada por me inspirares”. Bolas, isto caiu-me que nem um balde de água fria. Eu? Eu inspiro pessoas? E aí entendi que mostrar a nossa vulnerabilidade é muito mais uma atitude de força e de coragem do que um ato de fraqueza ou emotividade, como muitas vezes associamos. Mais uma aprendizagem Patrícia.

Durante as aulas discutíamos também os mais variados temas: falamos sobre morte, amor, medos e perdas. E eu fazia tantas perguntas! De caderno na mão apontava tudo quanto podia e ia para a cama todos os dias pesquisar mais e mais sobre o assunto. E no dia a seguir já tinha uma lista com mais perguntas. E o Chris tinha sempre resposta. Mas o mais incrível é que, ao mesmo tempo, não tinha. Ele não tinha conceitos, fórmulas ou caminhos. Ele devolvia a pergunta certa para nós chegarmos à resposta, de uma forma muito contundente. À resposta mais verdadeira e mais honesta possível. Sem ego, sem falsidades, sem tretas. A vida é simples, nós é que a complicamos. Num dos dias perguntei-lhe “Chris, isto é muito fácil e aqui estou muito feliz, mas como faço para manter isto quando chegar a Portugal? As minhas amigas e a minha família não pensam como eu, são tão diferentes. É difícil não me deixar contagiar pelo stress das pequenas coisas e pelos insignificantes problemas dos outros. Aqui é fácil, mas lá é quase impossível.”. E ele respondeu-me,

“Patrícia, tens a melhor escola à tua frente. Não podias ter melhor oportunidade de evoluir e de crescer do que estar num ambiente que à partida não te oferece essas condições. E a tua felicidade não pode ser posta nas mãos dos outros, é algo que vêm de ti.”.

Num outro dia, alguém lhe perguntou, “Mas Chris, qual é o problema de sair à noite com os amigos, beber álcool até cair para o lado e dançar até de manhã?”, “Não há absolutamente problema nenhum nisso. São ótimos momentos. Mas nunca te esqueças que a felicidade que sentes aí é só a ponta do iceberg. Mas a felicidade interior que sentes quando estás conectado contigo e quando és quem realmente és, é muito maior”.

Numa das aulas fiz muitas perguntas e estava meia confusa com as respostas, não estava e chegar lá. No final da aula, já de noite, fui até à porta do Projeto pensar no assunto, percorrendo uns 300 m na escuridão total. O Chris estava também a ir embora de mota e parou a mota no meio da escuridão e perguntou-me,

“Do you want a hug?”

Por vezes é só isto que precisamos, e foi só disto que precisei para entender tudo o que ele me dissera na aula. Poucas teorias e mais emoção, mais conexão. E logo eu, que sou muito teórica, demasiado pragmática!

De uma forma ou de outra estávamos sempre a aprender ali. Cresci muito e trouxe uma grande bagagem de vida. Ainda hoje, todos os dias, escrevo no meu caderno de viagem qual foi o melhor momento do meu dia. Sinto que precisava de estar lá mais tempo para absorver ainda mais. Por outro lado, sei que tenho sempre a porta aberta e que tenho sempre este cantinho do mundo onde posso voltar sempre que precisar de me encontrar. Foi a experiência mais profunda e gratificante da minha vida. Não me cabe no peito toda a gratidão que sinto por todas as bonitas pessoas que encontrei, que me inspiraram e me proporcionaram esta experiência.

Não tenho dúvidas de que trocaria estes dois meses e meio de viagem por estes 10 dias.

Foram 10 dias em que andei sempre “limpinha”. Ah, e não havia espelhos!

Todos os dias, por volta do 12h, aparecia uma senhora que vendia gelados de coco por 0,50€. Era como uma dádiva!

Claramente que esta foto foi depois do banho!

Lama, selva e 35 graus! Não soa bem.

Podia ser o meu prato, mas não …

A nossa bela construção 🙂

O nosso dormitório por dentro

O dormitório por fora

Hora de lavar a loiça, também tinha de ser!

A zona comunitária, onde fazíamos as refeições e onde passávamos a maior parte do tempo.

3 comentários

  1. Joana Santos em 18 de Dezembro de 2018 às 04:05

    Obrigada Patrícia pela partilha

    Adorei ler toda esta tua experiência, a maneira tão honesta e tão especial que nos transmitiste até deu vontade de lá estar a vivenciar tudo aquilo.
    Sem dúvida uns dez dias bem passados e com toda a certeza inesquecíveis, que não só te fizeram crecer lá naquele momento como também te vão ajudar ao longo do teu percurso.

    E ainda bem que enfrentaste os oito cães e não voltaste para trás com as malas 🙂

  2. Maria em 20 de Dezembro de 2018 às 21:13

    Obrigada pela partilha da tua história. Identifico-me muito, e foi uma verdadeira inspiração para mim. Espero um dia fazer um retiro de meditação na Tailândia também, quando sentir que é o momento certo. Um abraço!

  3. Elisabete em 30 de Janeiro de 2019 às 00:46

    Em apenas 10 dias houve uma grande mistura de emoções !! Momentos bons e momentos menos bons ! Leva tudo isso no teu coração porque é uma grande lição de vida ! Vais te tornar ainda mais bonita !! saudades ! Bjs

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