Ser professora num país comunista


Nos últimos dez dias tenho estado a fazer voluntariado numa comunidade perto de Vang Vieng, no Laos, onde tenho dado aulas de inglês a crianças e jovens, na aldeia de Nosum. Hoje escrevo um pouco sobre aquilo que mais me têm custado dando aulas num país tão diferente.

O Laos é um país de governo comunista e por isso na escola há muitas regras diferentes das “nossas”, regras essas que somos obrigados a respeitar. Uma delas tem a ver com tudo aquilo sobre o qual não podemos falar. Tudo o que lecionamos na escola faz parte de um programa desenhado pela associação que teve de ser aceite pelo governo. Discutir política, filosofia, ou qualquer outro tema que possa influenciar as crianças a pensar/agir de forma diferente à dos costumes locais são proibidas! Não poder falar sobre política era algo de que já estava à espera, dado o contexto político do país. Agora sobre filosofia, não contava. E isso revoltou-me! Enquanto aluna adorei ter aulas de filosofia e foi assim que aprendi a pensar e a perspetivar sobre as questões mais simplistas da vida. Se hoje tenho as minhas próprias ideologias plantadas em argumentos que considero verdadeiros, à filosofia o devo. Mais do que oferecer conteúdos, a filosofia fornece-nos ferramentas.

As próprias aulas “normais” (subentenda-se com professores locais) acontecem de forma muito diferente à nossa. E notamos isso quando, nas aulas de inglês, perguntamos aos miúdos se perceberam a matéria, se alguém tem dúvidas. Ficam com aqueles olhinhos rasgados a olhar para nós muito surpreendidos. Os professores aqui não lhes perguntam isso. Escrevem a matéria no quadro e lavam as suas mãos. Os miúdos não aprendem, tiram negativa mas continuam a passar de ano. Porque aqui um professor é tanto melhor quantos mais alunos passar!

E isto revolta-me porque não é este o conceito de escola que considero tão essencial à formação de uma criança. Aqui os miúdos não conhecem o mundo, não aprendem a pensar, não se podem expressar, não podem ser criativos. São treinados para serem quadrados e para saberem o menos possível. O mais importante é seguir as tradições: casar com 15 anos e ter um bom campo para sustentar a família. Não me chateia que trabalhem no campo toda a vida e que não estudem mais. O que me incomoda é que isso não é uma opção, é uma regra. Quando soube que se deveriam casar com 15 anos perguntei a um dos alunos internos por que é que ainda não estava casado, dado que já tinha 20 anos.

“Porque não quero ser pobre, quero estudar.”

Crianças a brincar na escola de Nosum

 

E cá dentro vi uma luz de esperança ao fundo do túnel. Afinal são estes jovens que, no futuro, poderão lutar pelos seus direitos.

As regas de indumentária são também restritas. Tanto professoras como alunas devem usar saia abaixo do joelho, cobrir os ombros, prender o cabelo e não usar maquilhagem. A maquilhagem é proibida porque é associada à prostituição. E esta é outra regra absurda pois maquilhagem e prostituição não estão necessariamente relacionadas e, se tal prática continuar a ser proibida, esta ideologia nunca será desconstruída. Enquanto professora sempre que vejo uma aluna com cabelo solto ou maquilhada devo chamá-la à atenção. Nunca o fiz, não tenho coragem. Estão no direito delas e, enquanto adolescentes, estão só a tentar expressar-se e a construir a sua personalidade.

Ontem tínhamos uma aluna de cabelo solto e com sombra cor-de-laranja, a Soua, que tem 13 anos. A Soua é a aluna mais tímida da turma, nunca a consegui convencer a ir ao quadro e sempre que falo com ela, ela tapa a cara com as mãos e solta um sorriso tímido. Nestas aulas temos a ajuda de um dos alunos internos, que falam lao e inglês, e que nos ajudam com a tradução nas turmas mais novas. Reparei que a Soua estava quase a chorar e perguntei ao rapaz que me estava a ajudar o que se passava com ela. Disse-me que a foi repreender porque ela não estava a cumprir as regras. A Soua foi para o fundo da sala e escondeu a cara por baixo da mesa. Encurvou os ombros para a frente na tentativa de tapar a cara com o cabelo para que eu não a visse. Também eu tinha rímel nesse dia. Respirei fundo 3 segundos para me controlar e fui à beira dela, baixei-me e pisquei-lhe um olho, na tentativa que ela reparasse que também eu, a professora, estava maquilhada. Sussurrei-lhe baixinho, “beautiful”.

Não sei se fiz bem ou mal, não sei se ela pensa que estou a influenciá-la a prostituir-se, nem tampouco sei se ela estava maquilhada porque ia ou esteve a prostituir-se. Mas naquele momento não consegui pensar em mais nada se não na vergonha que ela devia estar a sentir por uma regra tão estúpida quanto limitadora.

E assim vou passando pelos pingos da chuva tentando, indireta e discretamente, transmitir realidades diferentes, mostrar que há um mundo com muitas mais possibilidades.

Infelizmente é assim que, aos pouquinhos, se conquista a liberdade num país onde é quase impossível sonhar.

Uma menina a tentar espreitar para a sala de aula

 


 

2 comentários

  1. Ana Goncalves em 6 de Janeiro de 2019 às 18:56

    Olá, qual foi a plataforma que escolheste a nível de voluntariado?

    Obg Ana Goncalves

    • Patrícia Carvalho em 30 de Janeiro de 2019 às 05:05

      Neste caso conheci um rapaz que tinha lá feito voluntariado e que me passou o contacto, mas vinha preparada para utilizar o work away 🙂

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