Segurança em viagem

Um dos maiores receios de quem pondera fazer uma viagem a solo está em assegurar a sua própria segurança pessoal. De facto, o desconhecido traz-nos algum medo e isso é normal, é humano. Todavia, uma vez experimentado viajar sozinha pude desconstruir esta ideia de “insegurança” e perceber que, apesar de realmente existirem pessoas más no mundo, felizmente, existem muitas mais pessoas boas. É verdade que há locais e países potencialmente perigosos e que, poderemos, se assim o quisermos, evitá-los, face à insegurança que representam. É também verdade que a mulher tem, ainda, um papel inferior em grande parte do mundo, o que desde logo nos coloca numa posição mais vulnerável face ao sexo masculino. Ainda assim estes não podem ser motivos impeditivos. Neste post vou resumir alguns truques que utilizo nas minhas viagens de forma a assegurar a minha segurança pessoal sem porém deixar de interagir com os outros e sem deixar de me entregar ao próprio prazer da viagem.

 

1. O mundo é um lugar seguro.

Eu sei que isto pode parecer a lengalenga do costume e que podem pensar “é, dizes isso porque nunca te aconteceu nada. Quando acontecer quero ver!”. Felizmente nunca aconteceu e, se acontecer, espero ter a capacidade de o ver como um caso isolado ao invés de culpar um país inteiro por isso. É como tudo na vida. Todos nós conhecemos pessoas más, mas provavelmente conhecemos muitas mais pessoas boas. O mesmo se aplica ao resto das pessoas todas no mundo. É impressionante a quantidade de pessoas que nos querem conhecer e saber a nossa história de vida. É impressionante a quantidade de pessoas que param para nos ajudar e que nos oferecem, com genuinidade, um pouco daquilo que têm, seja um abraço, dois dedos de conversa ou uma refeição. Com esta mensagem quero apenas ressaltar que, por medo e por receio do desconhecido, muitas vezes deixamos de viver estas experiências que nos marcam para a vida. São elas que nos fazem crescer.


2. Fazer um seguro de viagem.

Esta é, provavelmente, o conselho mais óbvio, mas também o mais importante. Efetivamente, não há outra forma de garantirmos a nossa segurança face a qualquer inconveniente que nos possa acontecer. Existem várias seguradoras com boas coberturas. A escolha do seguro deve depender do tipo de viagem que vamos fazer (viagem independente, organizada, turística, aventureira), do tempo em que vamos estar em viagem (se alguns dias, semanas ou mesmo meses), e até do destino para onde vamos viajar (na Europa, felizmente, temos o cartão europeu de saúde que nos garante cuidados médicos, face, por exemplo, a uma viagem em África). As seguradoras nacionais, como a Fidelidade, Allianz ou Liberty, oferecem pacotes mais simples, apropriados para viagens standard. Já as seguradoras especializadas no tema das viagens, como a World Nomads, Globelink ou Marco Polo, oferecem seguros mais completos e mais especializados para os problemas que poderemos vir a ter.


3. Ter uma pulseira de identificação em caso de emergência.

Pode parecer que estamos de volta aos tempos da escola em que andamos com aquele colar de identificação, mas a verdade é que pode dar-nos uma grande ajuda. Não é mais do que uma simples pulseira onde temos gravadas algumas informações pessoais importantes como nome/idade, contacto em caso de emergência (de preferência de alguém que fale inglês), tipo sanguíneo (se precisarmos de uma transfusão, esta informação pode poupar muito tempo), e também o nº da nossa apólice de seguro. Esta última é das informações mais importantes que devemos colocar. Em países em desenvolvimento, em caso de inconsciência e de necessidades médicas urgentes, pode colocar-se a questão de nos tratarem ou não, visto não saberem se temos dinheiro para pagar. O facto de termos esta informação garante que, à partida, temos como pagar qualquer tipo de serviço médico.


4. Ter as mesmas informações na língua local.

Nem sempre estamos em locais onde falam inglês e, portanto, é também uma boa ideia podermos assegurar que, em caso de emergência, seremos bem encaminhados. Para tal, poderemos escrever as mesmas informações presentes na pulseira num papel, na língua do próprio país. O ideal será pedir a algum local que traduza e escreva na sua própria língua. Esse papel deverá andar na carteira, ou, se conseguirmos mais do que uma cópia, dividi-los pelos nossos pertences.


5. Ter um backup dos nossos documentos.

É também muito importante termos uma cópia de todos os documentos importantes, em caso de perda ou roubo. Por isso devemos ter várias cópias do passaporte, boletim de vacinas, vistos, cartões bancários e seguro de viagem. Devemos também ter estas cópias disponíveis em todos os nossos dispositivos eletrónicos (telemóveis, computadores e/ou tablets). Além destes convém termos também uma cópia do recibo/fatura dos materiais electrónicos que levamos bem como o nº de série de cada um. Isto porque, em caso de perda ou roubo, precisamos destes dados para reportar o caso à seguradora.


6. Ter sempre em atenção onde guardamos os nossos documentos. 

Um passaporte europeu pode ser muito valioso e este é, provavelmente, aquele que mais devemos proteger. Agora como fazê-lo é relativo. Se estivermos num hostel que nos pareça seguro podemos e devemos deixá-lo no cofre. Porém, se não acharmos que o local é de confiança, é melhor andarmos com ele (por exemplo num money belt). Ainda que isso seja também arriscado.


7. Reservar sempre alojamento no centro da cidade.

Esta é quase lei para mim. Estar bem localizados facilita-nos em tudo: não corremos o risco de ir parar a um bairro perigoso (pelo menos não tanto); evitamos andar de metro (o que também nos permite poupar dinheiro); há mais movimento nas ruas, o que por si só nos permite alongar um pouco mais por exemplo na hora de jantar. Além disso, convém sempre ficar em hostels com um cacifo para deixarmos os nossos presentes.


8. Ter vários cartões bancários, distribuídos pelas nossas coisas.

Um fica no hotel, outro vai connosco. Assim, caso aconteça alguma coisa, temos sempre outro cartão como segurança. Vale também ter as apps e as passwords todas dos bancos “à mão” para facilmente podermos cancelar os cartões, se necessário.


9. Evitar carteiras grandes, só facilitam os roubos por carteiristas.

Uso sempre 2 porta-moedas pequenos, um com uns trocos, que está “mais à mão” e que uso para o básico do dia-a-dia. Um outro com valores mais altos que está bem escondido na mochila e que serve para pagar hostels, transportes, vistos, etc etc.


10. Nunca colocar nada de valor na mochila/mala grande.

Nesta mala vai tudo o que não vale muito, roupa e afins. Numa mochila mais pequena vai tudo aquilo que é mais valioso, os documentos, o computador, e por aí fora. Nunca, em situação alguma, nos separamos desta mochila. Esta dorme connosco na cama e serve de almofada nas viagens noturnas.


11. Evitar chegar e sair de cidades durante a noite.

É mais incómodo passar 6h num autocarro durante o dia, do que durante a noite, mas sem dúvida que é mais seguro. A noite, por si só, traz mais insegurança. Às vezes é difícil, eu própria já cheguei ou saí de noite quando não tinha outra opção, mas tento sempre evitar.


12. Colocar uma capa nas mochilas. 

Esta é relativa. Não o faço sempre, mas talvez devesse. Ao colocar esta capa nas mochilas evitamos que, por exemplo, nos aeroportos, nos coloquem alguma coisa dentro da mochila grande. Ou, por exemplo, num autocarro em que estamos a dormir, ter uma capa na mochila torna mais difícil abri-la para tirar alguma coisa. Além disso devemos também etiquetar as mochilas com o nosso contacto pessoal, em caso de perda.

A capa torna muito mais difícil a abertura da mochila por outras pessoas.


13. Estar atento a esquemas típicos de viagem.

Se fizermos alguma pesquisa consoante o destino para onde vamos, facilmente encontramos os esquemas de viagem mais típicos para esse local. Alguns exemplos são os esquemas dos taxistas, os guias turísticos falsos, os falsos policias, sedativos nas bebidas, moeda falsa, etc. Se estivermos informados sobre estas situações estaremos também mais precavidos.


14. Adotar comportamentos seguros.

Esta questão é relativa e se pesquisarmos na internet, há vários “tipos” de comportamentos que sugerem adotar. Alguns acho que podem ser exagerados, portanto neste sentido escrevo-vos aqueles que eu, enquanto mulher que viaja sozinha, adoto. E digo mulher porque, infelizmente, se fosse homem, talvez arriscasse mais.

– Ir por onde toda a gente vai. Por exemplo, se estiver numa rua central, com várias pessoas e encontrar uma rua vazia, com pouco movimento, evito ir por ali. À partida, há mais segurança onde há mais pessoas;

– Não sair à noite sozinha. A menos que tenha companhia, não saio à noite a partir das 21h30, 22h, no máximo. Pode ser seguro, pode não ser, posso não encontrar uma forma confortável de voltar para casa, por isso não arrisco mesmo. Excetuando, como já disse, quando estou acompanhada por outras pessoas que lá conheci;

– Não beber álcool. Esta é também uma regra de ouro (e também uma promessa que faço à minha mãe). É um risco desnecessário, as histórias de “boa noite bela adormecida” são reais, e, ainda que possam ser mais raras do que a ideia que temos, prefiro não arriscar. Se tiver de acontecer alguma coisa que não seja porque fui inconsequente. O mesmo serve, como é óbvio, para estupefacientes. A exceção vai para a cerveja, e de preferência de lata, para que possa ser eu a abri-la;

– Informarmo-nos sobre os códigos cívicos daquela cultura. Esta é engraçada, mas também muito importante. Muitas atitudes que para nós são inofensivas noutras culturas podem ter algum significado e convém estarmos por dentro do assunto de forma a que não sejamos mal interpretados. Em algumas culturas um sorriso para alguém do sexo oposto pode indicar um convite de cariz sexual. Na Tailândia, por exemplo, é uma falta de educação tocar na cabeça de alguém. Ora isto é algo que fazemos sem maldade nenhuma a um bebé, por isso não custa ter isto em atenção;

– Respeitar a indumentária local. Normalmente dizem-nos para tentarmos parecer “o mais local possível”. Ora eu acho isto praticamente impossível em algumas regiões. Nota-se a léguas que somos europeus/ocidentais. Não temos olhos em bico nem somos extremamente morenos, por isso toda a gente notará que somos estrangeiros. Podemos sim, e devemos, respeitar a cultura local. Isso passa por, por exemplo, usar um lenço para nos cobrirmos sempre que necessário, tirar os sapatos sempre que for solicitado, não andar com os nossos típicos “micro-calções” quando mais ninguém os usa (só vamos estar a chamar a atenção e não pelos melhores motivos);


15. Seguir o nosso instinto.

Se há alguma situação que nos deixa desconfortável, algum hostel que não inspire confiança, ou uma carruagem vazia num comboio, podemos pegar nas nossas coisas e ir embora. Afinal, não devemos nada a ninguém. Podemos estar a ser obcecados ou exagerados, é certo, mas também não temos de estar a levar com um desconforto desnecessário. Às vezes, é melhor seguir o nosso instinto;


16. Por fim, e também muito importante, adotar uma atitude firme e confiante, ainda que não estejamos assim.

A postura conta muito, e se tivermos uma postura segura, de quem sabe onde está, o que está a fazer, e o que procura, afastamos alguns interesses alheios menos positivos. Ao invés, uma postura medrosa e insegura pode tornar-nos mais vulneráveis.

 

Não percamos a principal essência da viagem com o receio constantemente do que pode correr mal. Não vale a pena 😊

 

2 comentários

  1. Sílvia Freitas em 22 de Janeiro de 2019 às 16:50

    Gostei bastante e parece-me muito útil. Vou partilhar!

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