Quando acaba uma viagem?

Regressei desta viagem em junho de 2019. Trazia comigo poucos planos, nenhum projeto de vida. Nada de sólido. Apenas queria tempo. Queria regressar com tempo, com o tempo de trazer para cá todas as partes de mim pois, ainda que estivesse cá fisicamente, demorei muito tempo a integrar tudo o que vivi. A ideia era chegar e aproveitar o verão que estava à porta, habituar-me a uma nova vida e então, em setembro, começar a trabalhar e a ter uma vida dita “normal”. Mas a vida trocou-me as voltas, mesmo depois de eu lhe ter dado uma grande volta – propuseram-me escrever um livro sobre a viagem que tinha feito. Ponderei, pensei, e voltei a pensar, e pensei só mais um bocadinho. Decidi redefinir o objetivo que tinha (afinal, se houve algo que as viagens me ensinaram foi a não ter medo de mudar). Adiei o projeto “procurar emprego e ter uma vida normal” para o início do ano que se seguia, 2020. E assim foi. De setembro até dezembro mergulhei nas memórias que trazia e transformei em palavras todas as experiências que vivi, as histórias que ouvi, as emoções que me tomaram. Tentei, ao longo de infinitas linhas, refletir o impacto e a mudança que esta experiência teve em mim, dia após dia, mês após mês, país após país. Escrevê-lo ajudou-me a encontrar a pessoa em que me tornei depois desta viagem. O livro está pronto desde janeiro. Mas só agora senti a segurança e a confiança necessária para o partilhar. Não sei quando será publicado, nem se efetivamente chegará a ser, mas daqui para a frente pretendo partilhar por aqui alguns trechos do livro da história que vivi.

 


 

“Passei dois dias em Hanói, a tentar encontrar um autocarro que viajasse até Sapa, nas montanhas do Norte junto à fronteira com a China, mas não estava a conseguir encontrar. “Holiday season, holiday season”, era o que ouvia em todas as agências turísticas onde entrava. Já estava a ficar cansada de uma cidade tão cheia e confusa como Hanói e não queria ficar lá presa por quatro dias seguidos. Estava sentada nas escadas à porta do hostel, a pensar no que iria fazer, quando uma senhora que vendia frutas numa bicicleta, deixou cair o cesto da fruta ao chão. Num ápice, a senhora apanhou as frutas todas, meteu-as de volta no cesto, saltou para a bicicleta e seguiu o seu caminho. Mas fez aquilo com tal destreza e rapidez que me fez olhar para a rapariga que estava sentada ao meu lado, também nas escadas, como uma cara de surpresa.

– Oh my god, they are crazy – disse-lhe eu.

– Yes, that’s true. It was impressive – respondeu-me.

– Hi, I am Patrícia and you?

– Nivalda, from Portugal, and you?

– Portugal? Ah caralho!

A Nivalda era açoriana, tinha vinte e oito anos e estava a viajar há cerca de um mês. Tal como eu, também ela estava a pensar no que haveria de fazer à vida, mas por uma razão diferente. A Nivalda veio para a Ásia com o objetivo de fazer um curso no Bangladesh, já que ela trabalhava em serviço social e já tinha passado dois anos em São Tomé e Príncipe. Por algum motivo antecipara a viagem e deu por si no Laos, bem mais cedo do que aquilo que esperava. O primeiro mês de viagem foi uma aventura e abriu-lhe as portas para uma enorme vontade de ficar mais tempo e de prolongar a viagem tanto quanto pudesse.

– Nem sequer consigo pensar em voltar, a sério. Este último mês no Laos foi incrível – disse-me.

– Sei bem do que falas. Já cá estou há quatro meses e também não consigo pensar em regressar.

– E todas as pessoas que conheço estão a fazer viagens enormes, de seis meses, oito, um ano. Parece que só eu é que vim por pouco tempo.

– Há quatro anos fiz a minha primeira viagem, por três semanas, e tive a mesma sensação. Eu era a única a fazer uma viagem curta – respondi.

– Tenho de arranjar uma solução para ficar aqui mais tempo. Não sei, posso vender o carro, posso ir para a França trabalhar na apanha do morango e depois voltar. Não sei, mas tenho de arranjar solução.

A Nivalda era uma daquelas pessoas cheias de energia, capazes de acordar um morto com a sua boa disposição. Senti que, naquele momento, estava a precisar de conhecer uma pessoa assim. É engraçado como a viagem, o mundo, ou a vida, sei lá, nos dão sempre aquilo que precisamos no momento em que precisamos.

Depois de umas duas ou três horas de conversa, fomos jantar a uma taberna junto ao hostel que vendia a tão famosa sandes vietnamita, o Banh mí, por um euro. Tanto eu como a Nivalda estávamos a viajar com o mínimo dinheiro possível e, como acontece sempre nestas situações, acabamos por comer neste sítio durante todos os dias em que estivemos em Hanói. Estávamos as duas a jantar quando um rapaz, que estava na mesa ao lado, começou a meter conversa connosco. Era o Michie e, embora fosse do Paraguai, sabia falar português do Brasil e por isso estava a entender a nossa conversa toda. O Michie já estava na estrada há nove meses e ainda pretendia continuar por mais uns três ou quatro, no máximo – um ano era o seu limite.

No dia seguinte, fui ter com o Michie e fomos dar uma volta pela zona velha da cidade e pela famosa train street. Por alguma razão, começamos a falar no regresso a casa após uma viagem longa. Não tanto sobre como seria, mas mais sobre quando seria, ou quando deveria ser. Comecei esta viagem sem uma data de regresso definida, por dois motivos – em primeiro porque queria ter a experiência de viajar sem ter um prazo, sem sentir a pressão de ter de me despachar neste e naquele país porque só tinha mais um mês. Queria ter a experiência de viajar ao sabor da minha vontade. Em segundo, porque tinha medo. Tinha medo de impor um prazo de seis ou sete meses de viagem e de, ao quarto ou quinto mês, ficar com vontade de regressar. Não queria correr o risco de me arrastar numa viagem sem sentido só para cumprir um prazo. Por muito aventureira que seja, também sou (ou pelo menos era) uma daquelas pessoas que por muito mundo que viaje sabe sempre onde tem de regressar. Surpreendentemente, a viagem já ultrapassava os quatro meses e nem sequer me passava pela cabeça voltar para casa – “Tens de ir ao Myanmar, é incrível”, “Na Indonésia precisas de dois meses, aquilo é lindíssimo”, “E o Nepal, não vais incluir? E a Índia? Tens de ir à Índia”.

De repente, dei por mim a querer ir a todo o lado, menos pra casa. Tentava fazer contas ao dinheiro, olhava para o calendário, distribuía os meses que tinha pela frente por todos os países que tinha em mente e ia desenhando uma nova viagem, cada vez mais diferente daquela que tinha imaginado inicialmente – era a viagem a fazer-se a ela própria.

– Até ao verão ainda me devo conseguir aguentar – comentei com o Michie.

– Quando tiveres de ir embora vais saber. Mas é importante ter um limite – respondeu-me.

– Tu estabeleceste um limite de um ano independentemente de “sentires” que já era hora de regressar. Porquê?

– Por medo. Medo de perder as minhas raízes e de já não querer voltar para casa, pura e simplesmente porque já deixou de ser a casa.

– Achas que isso pode acontecer? – perguntei.

– Deixa-me contar-me uma história. Aqui há uns meses, estava eu a viajar há cerca de seis, quando conheci um rapaz no Sri Lanka, espanhol, que já estava a viajar há quinze meses. Ele estava prestes a ir para casa, a uma ou duas semanas de pôr fim à viagem. Quando lhe perguntei o que o fez regressar, depois de tanto tempo por aí, respondeu-me, “Preciso de voltar para saber porque é que fui embora”. Achei a resposta interessante, mas também assustadora. Este tipo já tinha vivido de tudo o que há para viver em viagem – já tinha sido preso, já tinha arranjado trabalho umas três ou quatro vezes, já se tinha apaixonado por uma indiana, tudo o que possas imaginar. Ele já tinha vivido todas as aventuras que há para viver. Entregou-se de tal forma ao mundo e ao imprevisto que a viagem perdeu o seu sentido. Ele já não tinha raízes, já não sentia a casa como casa, já não sabia porque é que tinha começado aquela viagem. Quando a viagem perde o seu sentido, continuas a viajar? Quando perdes as raízes, continuas a ser viajante?

– Não sei. A viagem, para ser viagem, tem de ter um início e um fim. Sem fim, deixa de ser viagem e passa a ser só uma forma de viver, uma vida normal. Passa-se a ser nómada – disse eu.

– Deixas de ser viajante e tornas-te num homem à procura de si próprio. No limite, o fim da viagem é quando ela cumpre o seu propósito, ponto a partir do qual deixa de fazer sentido.

A verdade é que eu dava por mim sem saudades de quase nada. Sentia falta das pessoas, dos amigos, dos momentos de convívio, dos jantares, dos domingos em família. Às vezes sentia vontade de estar presente num momento específico – num aniversário, numa festa, num almoço – e de no final poder regressar novamente para a viagem. Eu, que sempre fui uma miúda um bocado nostálgica, saudosista e às vezes até um pouco caseira e conservadora, estava a deixar de ser quem era. Todas as coisas que tinha deixado para trás, o meu carro, o meu quarto, os meus pertences e até os meus livros, perderam todo o seu significado. Já não valiam quase nada e aquilo que ainda valiam eu sabia que era apego, então só por isso deixavam de valer o que ainda valiam. Não imaginava o meu quarto, ou a minha cama como o meu cantinho, como outrora havia imaginado. O meu cantinho era agora eu própria – conseguia criar essa sensação de aconchego em qualquer lugar do mundo onde tivesse um colchão e um cobertor, mesmo que estivesse a dividir esse espaço com quinze pessoas. A verdade é que o cantinho se tinha alargado de tal forma que agora cabia o mundo inteiro lá dentro. Neste ponto da viagem estava a deixar cair a pele que já não me servia. As minhas raízes estavam a mover-se para algum lado, eu só não sabia bem para onde.

Talvez se aquela senhora não tivesse caído da bicicleta eu não teria conhecido a Nivalda. E se não tivesse conhecido a Nivalda, talvez também não tivesse conhecido o Michie. Coisas de viagem. Duas semanas depois da minha passagem por Hanói a Nivalda pôs o carro à venda. Coisas de viagem. Um ano depois, o Michie já tinha regressado ao Paraguai, mas a Nivalda ainda estava a viajar. Coisas de viagem.”

In capítulo 5, Solo

2 comentários

  1. Beatriz Ribeiro em 13 de Setembro de 2020 às 12:02

    Adorei. Que ideia fabulosa e que bom que te dedicaste a ela. Lança lá isso 😉

    • Patrícia Carvalho em 14 de Setembro de 2020 às 00:50

      Muito obrigada, vamos lá ver se para o Natal está editado beijinhos

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