Por quê o Sudeste Asiático?

Neste ano de pausa vou fazer a primeira grande viagem da minha vida, que será no Sudeste Asiático. As razões que me levaram a escolher este pedaço do mundo são várias e todas elas são, de certa forma, válidas. As paisagens são lindíssimas, os países são muito baratos (o que me permite fazer uma viagem longa com um budget mais baixo) e bastante seguros para mulheres que viajam sozinhas. Esta última dá-me o conforto necessário para, nesta altura do campeonato, partir sem medo do desconhecido. Porém, por entre todas estas razões há aquelas, ou aquela, que realmente ecoam cá dentro e me fazem ter muita vontade de abraçar este pedaço de terra. A primeira vez que lá estive foi há 3 anos atrás durante 3 semanas. Regressei com a sensação de que tinha de voltar, de que ainda havia muito para ver e viver por lá. Aquilo chamava por mim. Há ali um ciclo para ser fechado, para então poder partir para outros destinos.

Foi nessa viagem, bem como nas seguintes, que conheci, pela primeira vez, pessoas de uma cultura muito diferente da nossa. Muito diferentes na maneira de estar, na maneira em como se apresentam, em como se relacionam com os outros, em como se dão aos outros. Conheci um altruísmo que nunca até então tinha visto (o que não quer dizer que não exista por cá). E desde aí, sempre que me deparo com alguém cuja cultura bata o Oriente, é esse altruísmo e essa genuinidade que encontro e que me comove. Encontro pessoas mais autênticas, mais genuínas e sem filtros. Que nos ajudam sem se perguntarem se haverá uma segunda intenção, que nos dão um sorriso, que nos dão um abraço depois de nos conhecerem. Julgo que, de entre todas as culturas, não haverá diferença maior do que a que há entre o Oriente e o Ocidente. Sinto que a humanidade está dividida em dois, em duas partes que pensam e vivem com princípios e valores muito diferentes.

Duas metades da mesma laranja, desta laranja que é o mundo.
Não se trata de achar uma cultura melhor ou pior que a outra. Mas é uma cultura diferente e, se é diferente da minha, vale a pena conhecê-la e analisá-la, tirar o seu melhor e trazê-lo comigo, tornando-me, consequentemente, também eu melhor. Porque o motor de evolução de uma sociedade está na diferença e nas pontes de diálogo daí estabelecidas. E assim evoluímos como sociedade, como humanidade, como cidadãos, e em última instância como seres humanos.

Geralmente, quanto menos desenvolvido é um povo, mais humilde e solidário se revela. E se é verdade que eles têm muito a aprender connosco em matéria de desenvolvimento, educação, igualdade de género, direitos humanos, etc, é também verdade que nós temos muito a aprender com eles em termos de humildade, genuinidade, simplicidade, solidariedade. Em matéria de valores humanos, valores morais. Valores que, infelizmente, se têm tornado cada vez mais escassos na nossa sociedade. E contra mim escrevo.

Portanto, por quê o Sudeste Asiático?

Para voltar às origens, para aprender estes valores que são ferramentas para vida. Ensinamentos que comprometem uma forma de estar mais genuína, mais natural, mais humana. Para aprender a ser grata, para aprender a aceitar a vida como ela é. Para aprender a olhar para a vida com uma lente diferente, com uma visão mais ampla, mais serena, mais terrena. Para com isso me tornar melhor pessoa.

Temos muito a aprender uns com os outros. Afinal, somos duas metades da mesma laranja. Somos todos humanos que apenas procuramos ser felizes.

 

 

 

 

2 comentários

  1. Ricardo Gil em 4 de Setembro de 2018 às 13:57

    Olá Patrícia 🙂

    Através do Instagram dei de caras com o ‘Girl from nowhere’ e, desde então, tenho acompanhado as novidades acerca da aventura que está prestes a concretizar-se.

    Como uma coisa puxa a outra, vim aqui parar e tenho lido (com atenção e curiosidade) os relatos aqui partilhados. No seguimento, parabéns pelo blog: está excelente!

    Não sabia que já tinhas visitado a Tailândia (também numa viagem sozinha) e, sinceramente, é de aplaudir a tua coragem e iniciativa.

    Encontras alguma razão para esse chamamento, esse magnetismo (se assim podemos definir) vindo da Ásia? Ou, há coisas que não se explicam?

    O teu percurso, e a forma como chegaste até aqui, é interessante e, em certos aspectos, revejo-me nessa paixão pelas viagens e pela descoberta.

    Até no “incentivo” dado pelos livros do Gonçalo Cadilhe.

    Por sua vez, há um excerto que li num outro post que achei muito engraçado (e no qual me revejo):

    “Estar a viajar sozinha e sem planos é o extremo oposto à minha personalidade. Por isso é que muitas vezes me pergunto como posso ser tão feliz fazendo algo que me é tão contra-natura”.

    Depois, muito do que escreves, acerca do abrir fronteiras, da filosofia de vida, de procurar uma harmonia e sentido, de evolução pessoal, é algo louvável.

    No meu caso, como já sou um pouco mais velho e tenho a vida organizada (digamos assim), viajo em lazer e por prazer quando as férias permitem.

    Que achas que irá acontecer no teu caso? O futuro é um livro aberto? Tenho a sensação de que dificilmente irás largar o “bichinho” das viagens”, certo?

    Desculpa extensão do comentário, mas achei simpático alargar um bocadinho o tema e debater estas ambições e reflexões relacionadas com as viagens.

    Aproveito para desejar toda a sorte na aventura que se aproxima (já falta pouco) e, claro, irei estar atento às histórias e fotografias que irás partilhando.

    Tudo de bom e força na perseguição do sonho 🙂

    Ricardo Gil

    • Patrícia Carvalho em 5 de Setembro de 2018 às 14:46

      Olá Ricardo 🙂
      Desde já quero agradecer-lhe pelo seu comentário e pela crítica fantástica. De facto, quando comecei com este projeto nunca pensei que este pudesse vir a ter esta proporção. Receber estas mensagens são uma motivação enorme e por isso só lhe tenho a agradecer, do fundo do coração 🙂

      Quanto à vontade de visitar novamente a Ásia, não creio que seja infundado. A Tailândia foi para mim a minha primeira janela para o mundo. Fiz essa viagem com 21 anos, e, embora todos nós saibamos que existem culturas muito diferentes e tudo mais, estar lá, nessa mesma cultura, sozinha, é muito diferente. Portanto esta foi a primeira vez em que eu vi como é que essas outras culturas (que tanto ouvimos falar em livros, na escola, etc) se comportam, com que valores morais se regem, como é que lidam com as situações diárias. Foi a primeira janela para o mundo.
      E para alguém que nunca saiu da Europa, foi um choque cultural. Foi uma quebra de padrões à qual tive de me adaptar rapidamente. E não foi mau! Muito pelo contrário, isso ensinou-me muito. Sabe, não quero criticar a nossa cultura nem a nossa forma de estar. Partindo do pressuposto que todas as culturas têm aspetos positivos e negativos, encontrei lá muitas características positivas que de alguma forma estão a entrar em falta nos nosso padrões Ocidentais. A simplicidade, a serenidade, a entreajuda, a solidariedade. São valores morais que temos vindo a perder mas que eu penso serem ferramentas essenciais para a vida. Dando-lhe um exemplo: Se alguém na rua lhe pedir boleia talvez diga que não porque não conhece aquela pessoa. Provavelmente vai desconfiar e vai achar inseguro. Ora, este é um pensamento típico. Mas repare que, agindo assim, estamos a superiorizar-nos em relação ao outro. Deixamos de ajudar alguém, com medo que esse alguém nos faça mal. Mas aquela pessoa precisa de ajuda e nós não!
      Não quero pintar um mundo cor-de-rosa (que não é infelizmente) mas sim um mundo onde pode haver uma compreensão maior para com o outro. Um sentido de igualdade e de respeito. E foi isso que encontrei lá. Vivi várias situações em que a gratidão que senti foi avassaladora. E o mais engraçado foi pensar que, se fosse em Portugal, e se fosse eu a estar no lugar daquelas pessoas, talvez não olhasse para a rapariga que está a viajar e que precisa de alguma coisa. E essa foi uma das grandes aprendizagens desta primeira viagem. No fundo, viajo para me encontrar e evoluir enquanto ser humano. E para isso não há nada melhor que o choque cultural. Só a diferença é que o vai pôr a pensar nas suas atitudes. E só pensando nelas é que as muda.

      Quanto ao futuro, bem, esse sim, é um livro completamente em aberto! Terminei o mestrado em Março deste ano. Formei-me em Bioquímica e, desde pequena que o meu sonho era ser cientista! Estudei com todo o gosto e paixão que tenho pela ciência durante estes 5 anos. Porém, durante esse tempo fui também alimentando esta paixão por viagens, sem conseguir muito bem encaixar as duas coisas nos meus planos futuros (Como ser cientista e viajante ao mesmo tempo?!). Foi por isso que decidi que, findados os estudos, iria viver um pouquinho desta outra paixão e “logo se vê”.
      O futuro é incerto pois esta questão é um pau de dois bicos. Por um lado tenho uma vida mais organizada, mais estável, numa área que gosto mas que implica muito tempo. Investir numa carreira em ciência com sucesso quase que implica colocar a vida pessoal de lado. Saímos do laboratório mas vamos para casa pensar no trabalho. É difícil desligarmo-nos. E isso é o que mais detesto na minha profissão. Por outro lado, a viajar tenho uma vida completamente livre, onde cada dia é um dia a valer. As certezas são poucas, o equilibro económico não existe, a carreira muito menos. É mandar tudo isso às favas.
      Mas, um dia a viajar valem 30 dias de trabalho.

      Não sei mesmo como vai ser o futuro mas espero que esta viagem me dê clarividência para tomar um rumo dentro destas opções. Creio que o mais importante é que a opção que eu escolha seja aquela que eu sinto que quero fazer. Pois só aí estarei a ser fiel a mim própria e só aí poderei entregar-me de corpo e alma a uma das áreas. E assim, ser feliz!

      Mais uma vez muito obrigada pelo seu comentário. Foi um prazer pôr em escrito todos estes pensamentos que me vão pairando pela cabeça 🙂

      Patrícia Carvalho

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