Os Direitos das Mulheres no Oásis de Bahariya, Egito – Parte III

Esta é a terceira crónica de um conjunto de quatro crónicas que pretendem abordar o tema dos Direitos Humanos no Egito. A primeira crónica aborda os Direitos Humanos de uma forma geral enquanto que as seguintes relatam situações que vivi durante a viagem que fiz ao Egito e que me alertaram para a fragilidade destes direitos neste país.

Baharyia e o lado mais conservador do Egito

Durante a viagem que fiz pelo Egito, e depois de uma rápida passagem pelo Cairo, fui até ao oásis de Bahariya, um dos quatro oásis do Egipto. A maior parte da população vive nas margens do Nilo e, portanto, os oásis são zonas mais isoladas e menos populosas. Tendencialmente, são também mais conservadoras.

Assim que chegamos ao nosso lodge em Bahariya, fomos convidados a descansar e a beber um chá típico da região. Afinal, tinham sido cinco horas de viagem desde o Cairo e o dia ainda se avizinhava longo. Pousamos as mochilas, agradecemos o chá e fomos dar uma volta pelo lodge, para esticar as pernas. Contudo, estamos em época de COVID, o que nos torna nos únicos estrangeiros daquele lugar. Vamos cruzando olhar com uma ou outra pessoa, que percebemos trabalhar lá. 

– Já reparaste que só há homens a trabalhar aqui? – perguntei.

– Sim, já. E a fazer coisas que, normalmente, são trabalhos de mulher. Olha aqueles ali na cozinha – diz-me o Pedro, enquanto penetra o olhar por uma pequena abertura e vislumbra o interior da cozinha. 

Passamos então pela zona dos quartos, onde também eram os homens que se ocupavam da limpeza e manutenção. Achamos estranho, mas não questionamos. Depois de um almoço delicioso, pegamos nas mochilas e fomos conhecer o nosso guia. Chamava-se Mahmoud e era beduíno, natural de Bahariya. Era este o homem que nos ia acompanhar durante os próximos dois dias, era com ele que iríamos viajar pelo deserto branco e conhecer um dos lugares mais extraordinários que já vi. Zarpamos para o jipe e, sem perder tempo, rumamos deserto adentro. 

O jipe que nos levou pelo deserto e o Mahmoud, o nosso guia
Deserto Branco, a principal atração de Baharyia

Mahmoud, o nosso guia

O Mahmoud não era craque no inglês, mas falava o suficiente para nos entendermos e mantermos uma conversa. Já de noite e invadidos pelo frio inerente do deserto, juntamo-nos à volta da lareira, perto da tenda onde iríamos pernoitar. Já tínhamos jantado e, na companhia de um chá de menta e da tão famosa shisha, abriram-se as hostes para conhecer melhor aquele que era o nosso guia. O Mahmoud tinha 34 anos e estava casado há 6, com uma rapariga de 24 anos. Já tinha dois filhos, uma menina de 5 anos e um rapaz de 1 mês. 

À noite, no deserto branco, a beber chá de menta e a fumar shisha

– Onde está a sua mulher? – questionei.

– A minha mulher? Está em casa, a tomar conta da família – respondeu-me, com um tom orgulhoso. Orgulhoso não por ela estar em casa, mas por ter uma família. 

– Ela tem um trabalho?

– A minha mulher, trabalhar? Não, não, nem pensar.

Olhei para o Pedro com um olhar complacente, esperando que ele tirasse a mesma conclusão do que eu. Em Bahariya as mulheres não só não trabalham, como não saem de casa sozinhas. E esse era o motivo pelo qual não cruzamos olhar com nenhuma mulher durante o tempo em que estivemos no oásis. Precisam de um homem para sair de casa, ainda que esse “homem” seja uma criança com 5 ou 6 anos. A burka não é uma escolha e, mesmo debaixo das altas temperaturas que atingem estas zonas no Verão, as mulheres têm de cobrir o corpo tolo, incluíndo mãos e pés.

As mulheres em Baharyia

Mas quando viajamos temos de “mudar o nosso chip” e despir o véu ocidental de que somos feitos. É hora de ouvir e absorver uma realidade diferente.

A conversa continuou a fluir e o Mahmoud passou-me a narguilé para eu fumar. No primeiro momento hesitei. “Será que é na boa fumar? No meio de tanto conservadorismo, seria permitido?”, pensei. A verdade é que foi ele quem me “ofereceu” e, portanto, aceitei. Dei uns bafos e nada aconteceu. Havia uma clara diferença na forma de tratamento entre as mulheres estrangeiras e as mulheres de lá. As estrangeiras tinham direitos que as outras não tinham – podíamos fumar, usar roupas mais extravagantes, conversar com homens. Não estranhavam estes comportamentos. Sabiam que, para nós, na nossa realidade, isto é normal.

– A tua mulher, ela fuma? – perguntei ao nosso guia, apontando para a narguilé.

– Não, não, nem pensar! – Responde-me, ao mesmo tempo que simula o gesto de quem vai pegar num tronco da fogueira incandescente e o usa para bater em alguém. 

Mas, contrariamente ao que seria esperado, ele não o disse com um tom agressivo, nem parecia chateado com essa possibilidade. Estava animado e ria-se. E isso ainda era mais impressionante – a naturalidade com que a mulher era menosprezada. A facilidade com que era dominada pelo homem. Como se fosse normal. E, no fundo, era. 

De facto, os únicos a ficarem chocados com aquilo, fomos nós.

O Mahmoud, o nosso guia durante a expedição ao deserto branco, em Baharyia, Egito
A tenda onde pernoitamos no deserto branco, em Baharyia, Egito

Vê aqui as crónicas anteriores:

A cidade do lixo e a discriminação cristã no Egito – Parte II

Direitos Humanos no Egito (ou a falta deles) – Parte I

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