O culto intelectual da sociedade ocidental

“(…) Já no dia seguinte, estava a entrar num supermercado quando um homem, com perto de cinquenta anos, me aborda e me pergunta se posso conversar com ele, pois ele queria treinar o seu inglês. Num primeiro momento fiquei com uma má impressão e passou-me pela cabeça que aquilo talvez pudesse fazer parte de um esquema turístico. No segundo a seguir, arrependi-me deste pensamento – por que raio é que temos sempre de achar que os outros nos querem fazer mal? Mas somos assim tão especiais para nos acharmos tão cobiçados?

Disse-lhe que sim, sentámo-nos numas mesas e começamos a conversar. Embora o senhor não tivesse um nível de inglês excelente, era compreensível. Contou-me que era católico protestante e que queria melhorar o seu inglês para ir aos EUA espalhar a sua fé. Disse-me também que doava parte do seu dinheiro para uma associação religiosa que depois o enviava nestas missões, e perguntou-me o que é que eu achava disto. Apesar de não ser crente nem religiosa, torço ainda mais o nariz quando misturam dinheiro com religião. Porém, naquele momento, tinha à minha frente um homem de cinquenta anos que me parecia ter construído parte da sua vida em cima dessa crença e eu não tive coragem de a destronar.

– Se faz sentido para si, então está tudo bem. Só nós sabemos o que é melhor para nós próprios – disse eu.

– Já estive na Holanda, Áustria e Alemanha há três anos, a propósito de uma missão de fé – contou-me.

– E então, gostou da Europa?

– Gostei, mas é muito diferente. Não é para mim.

– Então porquê?

– Não sei, mas sentia que as pessoas me achavam burro.

Não sabia o que lhe responder e, de forma natural e inconsciente, pedi-lhe desculpa, como se de certa forma me estivesse a sentir culpada por tal ato. Conversamos por mais uns minutos, depois despedimo-nos e cada um seguiu o seu caminho. Contudo, não consegui tirar esta resposta da cabeça e comecei a pensar no culto intelectual que se vive hoje em dia. É certo que, pelo menos de uma forma geral, nunca tivemos uma população tão culta e com um acesso ao conhecimento tão vasto como nos dias de hoje. Mas, ter acesso ao conhecimento não significa que tenhamos todos de ser intelectualmente cultos. Parece-me que, hoje em dia, sobrevalorizamos a inteligência e a cultura geral a um patamar talvez exagerado.

Vivemos numa época em que as pessoas têm mais vergonha de dar um erro ortográfico ou de não saber a capital do Canadá do que de serem gordas, baixinhas ou peludas. Além disso, já não basta ter um bom nível de conhecimento dentro da nossa área específica – devemos conhecer tão bem Hemingway como Rosalind Franklin ou Lincoln, ainda que estas pessoas sejam de áreas tão diferentes. Nunca adoramos nem bajulamos tanto osentido de intelectualidade. Vivemos num mundo em que a inteligência é não só o maior fator de desigualdade social como é também a desigualdade que mais desigualdade gera.

A pergunta que me assolava era, porquê? Porque é que valorizamos tanto a intelectualidade? O que é que o nível de intelectualidade realmente nos diz sobre uma pessoa para o apreciarmos tanto?

Parece-me que não diz nada de especial. Isto é, apenas revela que tal pessoa tem um interesse, nomeadamente o interesse em saber coisas novas. E esse interesse não é mais importante do que outros interesses, como tocar um instrumento, praticar um desporto ou coser botões. Além disso, não creio que um nível de intelectualidade elevado indique que uma determinada pessoa seja boa pessoa – se por um lado acredito que uma pessoa com mais cultura geral tenderá, à partida, a ser mais racional e equilibrada nos seuspensamentos e decisões, por outro lado, não acho que esta relação seja tão linear assim. Um exemplo disso é o caso da Alemanha que era dos países mais cultos e instruído do mundo na altura em que sedeu o Holocausto.

Uma pessoa inteligente e/ou culta não é, forçosamente, uma boa pessoa e características como a gentileza e a empatia, que considero serem até mais importantes, não estão dependentes do intelecto.”

in Solo, capítulo 5

Eu e o senhor com quem conversei, não lhe cheguei a perguntar o nome.

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