Lição 1 – A arte de se saber ser vulnerável

(Esta viagem é muito mais do que uma viagem. É uma experiência de vida. Uma espécie de viagem interior. Alguém disse um dia que “queremos dar a volta ao mundo mas o mundo é que nos dá a volta a nós”. E é muito isto. Estou aqui mais para me descobrir do que propriamente para conhecer lugares. Estou aqui para ouvir histórias, para ver rostos, para conhecer aquilo que é diferente e para descobrir o meu lugar no mundo. Sou também adepta de listas, sejam elas de que tipo for. E desde que cá estou que tenho feito uma lista sobre as lições que tenho aprendido nesta minha jornada pelo mundo. Inicio aqui uma série de textos sobre tudo aquilo que me têm feito refletir, tudo aquilo que tenho aprendido. Provavelmente sobre tudo aquilo que irá moldar o meu futuro e a minha vida. Se este é um blog sobre a minha experiência pessoal e se esta viagem é também uma viagem interior, acho que faz todo o sentido partilhá-los aqui. Espero que gostem 😊)

 

Ninguém gosta de se mostrar vulnerável. Apresentar-se vulnerável é quase sempre conotado como uma forma de fragilidade. E por isso temos tanta dificuldade em falar sobre os nossos problemas, sobre o nosso lado mais negro, sobre as histórias que nos magoaram. Acho que isto é intrinsecamente natural. Somos seres humanos, seres biossociais e, portanto, precisamos de nos relacionar com os outros. Assim sendo, tudo aquilo que nos possa fazer sentir rejeitados tem tendência a ficar bem lá no fundo da gaveta. Quase que inconscientemente apresentamos sempre o nosso melhor lado, para os outros e para o mundo.

No Projeto Mindfulness todos os dias tínhamos o talking circle, um momento em que nos reuníamos e em que respondíamos a duas perguntas, de caráter introspetivo. Uma delas sobre qual havia sido o melhor momento do nosso dia. Era sempre um momento em que nos abríamos e em que falávamos sobre o que vai mesmo lá no fundo. No meu primeiro dia a Lily disse que o seu melhor momento estava a ser o talking circle, e nomeadamente, estava a ser apreciar como as pessoas ficavam muito mais bonitas quando se revelavam, quando eram honestas consigo próprias enquanto partilhavam a sua história, fosse ela qual fosse. E aquilo deixou-me a pensar. Rata como sou fui para a cama pesquisar sobre o assunto, fui procurar estudos que explicavam esta dificuldade em expressar as nossas fragilidades, fui pesquisar sobre vulnerabilidade.

Encontrei um estudo feito pela Brené Brown sobre a coragem de saber ser imperfeito, estudo esse que mais tarde originou uma ted talk muito famosa (https://www.youtube.com/watch?v=yPY7uF5Yle8&t=560s). De uma forma geral a Brené começou por estudar a conexão humana e após ter feito várias entrevistas percebeu que haviam dois tipos de pessoas, aquelas que tinham mais vergonha e receio em revelar situações desconfortáveis e aquelas que não tinham qualquer problema nisso e aceitavam a sua vulnerabilidade. Após analisar todas as entrevistas das pessoas deste último grupo, ela percebeu qual era o padrão. Todas elas tinham um maior sentimento de pertença, uma maior capacidade de empatia e de desenvolver relações humanas. Além disso, eram mais felizes. No fundo estas eram pessoas que tinham a coragem de se assumirem imperfeitos perante os outros e, por conseguinte, a coragem de serem autênticos. Além disso, pessoas deste grupo não se referiam à vulnerabilidade como sendo algo pejorativo, ou vergonhoso. Muito pelo contrário, elas falam sobre vulnerabilidade como sendo algo necessário.

(“ Hmmm, ser necessário mostrar-me vulnerável? Interessante”, pensei)

No fundo, a vulnerabilidade tinha como core principal a vergonha, o medo e a rejeição, mas era também a fonte de criatividade, alegria, amor e gratidão. Ou seja, um pau de dois bicos. A história da Brené é muito engraçada pois durante a sua pesquisa percebeu que ela própria estava no grupo de pessoas que não aceitavam a vulnerabilidade o que fez com que desenvolvesse uma espécie de depressão a meio do estudo. Teve de parar a pesquisa, afastar-se e fazer terapia até estar pronta para voltar ao trabalho.

E isto deixou-me a pensar, nunca tinha associado vulnerabilidade com felicidade. Além disso, refleti também sobre até que ponto é que eu sou realmente autêntica. É muito fácil dizer que somos frontais, verdadeiros, que não temos filtros, blablabla. Mas até que ponto é que, por exemplo, falamos sobre os nossos problemas familiares da mesma forma que falamos sobre o sucesso no nosso trabalho, mesmo com amigos próximos?

(As coisas aqui começaram a fazer sentido na minha cabeça)

De facto, isto fazia total match com aquilo que tinha ouvido durante o talking circle. Naquele momento as pessoas estavam a ser autênticas e estavam a falar sobre a sua vida sem qualquer pudor sobre as suas dificuldades. Não tinham vergonha, medo de rejeição nem receio de serem julgadas. E isso tornava-as mais bonitas ao mesmo tempo que inspirava os outros, neste caso, a Lily. Além disso, e não menos importante, esta atitude fazia com que todos nós, naquele projeto, desenvolvêssemos uma maior empatia uns com outros, mesmo com aqueles que, à partida, não teriam tanto a ver connosco. E pude verificar isso durante os dez dias que lá estive, ao mesmo tempo que fui fazendo o esforço de me abrir cada vez mais durante os talking circles. No último dia dei a minha maior talk, quase uns 15 minutos, e fui capaz de dizer tudo o que me vinha à cabeça, quase sem pensar. No final, 4 pessoas vieram ter comigo e disseram-me “Parabéns pela tua talk, foi super inspiradora”.

E cá está! Naquele momento eu só verifiquei, na prática, aquilo que aprendi lá no primeiro dia. Ficou a primeira lição,

 

“Ter coragem de saber ser vulnerável”

 

 


 

 

8 comentários

  1. Cátia em 29 de Janeiro de 2019 às 17:50

    Parabéns pela coragem 🙂

  2. Inês em 29 de Janeiro de 2019 às 18:36

    Incrível Parabéns!

  3. Catarina Miguel em 29 de Janeiro de 2019 às 19:52

    Sigo o teu percurso, através do Instagram, e gosto muito! Não sei se gostas que o diga, mas és uma influencer para mim!
    Gosto das publicações e da escrita! és um exemplo para mim…! “Quando for grande” também quero ser assim! Identifico-me com o conteúdo que partilhas! E admiro como tomaste a coragem de o fazer! Parabéns por toda a resiliência e coragem!

    Tens razão, todos somos vulneráveis! E admiti-lo é de rei/rainha!

    • Patrícia Carvalho em 30 de Janeiro de 2019 às 04:45

      Viajar tem destes efeitos, de nos moldar a cada passo. E se estivermos disponíveis a abraçar essa mudança sem dúvida que retiramos da viagem aquilo que ela tem de melhor. Muito obrigada pela tua mensagem, fico muito feliz por receber feedback positivo desse lado 🙂

  4. Elisabete em 29 de Janeiro de 2019 às 23:52

    Quanto mais transparente mais vulnerável somos !! Assim tudo é mais positivo a nossa volta ! Parabéns pela lição !

  5. Maria em 26 de Fevereiro de 2019 às 14:30

    De uma forma que nem eu sei muito bem, este texto mexeu comigo. Obrigada. Continua!

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