Direitos Humanos no Egito (ou a falta deles) – Parte I

Antes de viajar para o Egito, tinha a perceção de que este era um país intermédio no que toca aos direitos humanos. É certo que é um país muçulmano, que integra a região do Médio Oriente, mas ainda assim puxava-o mais para a Turquia e menos para países como o Irão. Durante a preparação da viagem, fui-me cruzando com uns laivos de informação que mencionavam o assédio como algo a ter cuidado, mas nada que me preparasse para a realidade que iria enfrentar. Acabei por encontrar um país bastante conservador, com ideologias antiquadas e com práticas que julgava pertencerem a países menos desenvolvidos. 

Uma grande parte daquilo que é viajar passa por entender a contextualização do país onde estou. E por este motivo gosto sempre de compreender a história recente do país, de perceber que problemas sociais estão a travar naquele momento, quais são as preocupações dos seus cidadãos, etc. Neste sentido, num dos primeiros dias de viagem, fui pesquisar sobre os direitos humanos do Egito. Neste artigo, vou explorar alguns destes estudos.

Aqui o resumo de alguns dados/ estudos que encontrei:

Direitos Humanos no Egito:

Os Direitos Humanos no Egito ainda não são uma realidade

Direitos das Mulheres no Egito:

  • Em 2005, 97% das mulheres, entre os 15 e os 49 anos, tinham sofrido mutilação genital feminina. Apesar de a prática ter sido criminalizada em 2008, tal ato ainda continua a ocorrer. Em 2020, a morte de uma menina, por hemorragia após o corte, veio alertar novamente para este problema;
  • Em 2016 um deputado egípcio afirmou que a mutilação genital feminina era importante para os casais terem uma vida tranquila porque os homens são “sexualmente fracos”. (O Egito é dos países que mais consome estimulantes sexuais);
  • Em 2013, segundo a ONU, 99% das mulheres egípcias relataram já ter sofrido algum tipo de assédio sexual;
  • Segundo uma pesquisa da Thomson Reuters Foundation, em 2017, o Cairo foi descrito como a “megacidade mais perigosa do mundo para as mulheres”;
  • Em tribunal, o testemunho de uma mulher vale menos do que o de um homem;
  • Segundo uma investigação do Pew Research Center, 82% dos egípcios apoia o apedrejamento para quem comete adultério;
As mulheres têm uma grande luta pela frente no que toca aos Direitos Humanos no Egito

Porém, ao longo da viagem, percebi que não era a única pessoa a desconhecer estas informações e a ter uma perceção errada sobre o Egito. A maioria das pessoas considerava o Egito um país relativamente tolerante, o que me levou a pensar que motivos é que suportam esta ideia, tão desfasada da realidade. Creio que existem dois fatores predominantes:

O Egito foi (e voltará a ser) um país muito turístico:

Apesar de nos últimos 10 anos o turismo no Egito ter caído a pique, a verdade é que, antes dos acontecimentos que marcaram a década, o Egito recebia milhares de visitantes por ano. Afinal, ainda a grande maioria dos países não tinha conhecido o fenómeno turismo e já o Nilo estava cheio de cruzeiros para cima e para baixo. Era uma altura em que apenas uma parte da população viajava, é certo, mas não deixa de ser um conjunto de pessoas de uma cultura diferente a visitar um outro país também diferente. Esta abertura ao turismo normalmente está associada a um maior nível de tolerância e aceitação. Um país que está aberto ao turismo é por si só um país que aceita receber pessoas diferentes. E talvez o facto de este ser um país tão turístico tenha ajudado a segmentar a ideia de que também era um país tolerante. 

O facto de o Egito ter sido sempre um destino turístico pode ter criado a falsa impressão de que também era um país tolerante

O Egito é detentor do canal de Suez:

Existe também outro ponto a considerar, mais subtil, mas com um poder de camuflagem muito maior – interesses geopolíticos. Afinal de contas, o Egito possui o canal do Suez, canal responsável pela principal rota comercial do mundo. 

O canal de Suez é um canal marítimo artificial que permite ligar o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo. Este canal permite que as mercadorias sejam transportadas diretamente entre a Ásia e a Europa, sem terem de atravessar toda a costa de África.  Em 2015, cerca de 8% de todo o comércio mundial passava pelo canal de Suez. Cerca de 2,5% de todo o petróleo do mundo passa por ali todos os dias. O encerramento do canal de Suez acrescentaria 15 dias de tempo de trânsito para e Europa, com os custos correspondentes. 

Por este motivo, nenhum país quer entrar a pés juntos num confronto direto com o Egito. Nenhum tem coragem de impor sanções económicas a um país que detêm o mais importante canal marítimo do mundo. Quem o fizer, terá prejuízos nas mercadorias que recebe, seja por um aumento dos preços ou por uma limitação dos produtos. 

O canal de Suez assume um papel de extrema importância na polícia externa do Egito

Durante o tempo em que lá estive pouca informação útil consegui retirar no que toca a estes temas. Sempre que surgia a oportunidade, e sempre que o contexto o permitia, tentei abordar o tema, de forma subtil. Decidi continuar a abraçar a viagem com a mesma disponibilidade de outrora. Afinal, a viagem é mestre em destruir ideias pré-concebidas e talvez saísse de lá com uma noção diferente. A observação é uma das melhores armas do viajante e eu estava disposta a usá-la para desvendar a realidade do Egito.

Esta é a primeira crónica de um conjunto de quatro crónicas que pretendem abordar o tema dos Direitos Humanos no Egito. Ao longo das crónicas seguintes vou relatar situações que vivi durante a viagem que me alertaram para a fragilidade dos Direitos Humanos

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