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Aquilo que eu não contei – parte III

Quando estava a começar este projeto, no processo de criação do blog, o Filipe fez-me algumas questões práticas sobre marketing digital, por entre as quais sobre “como é que eu pensaria destacar o meu projeto sobre viagens, face a todos os outros blogs e instagrams que já existem”. Pergunta difícil, à qual eu não tinha ainda uma resposta. Afinal, eu só queria partilhar a minha viagem e porventura inspirar os outros a partir, tal como os outros blogs/instagrams haviam feito comigo. Refleti sobre essa questão e sobre como poderia tentar ser diferente. E aí decidi que, se tivesse de marcar pela diferença, em algum ponto, passaria por ser o mais verdadeira possível. Já tinha viajado para a Ásia sozinha uma vez e sabia que nem sempre era pêra doce. Sabia que haveriam alturas em que me sentiria sozinha, triste, aborrecida, com saudades de casa. Sabia que haveriam desafios para cumprir e que coisas más também poderiam acontecer.
Ao longo destes 8 meses tentei sempre partilhar isso de forma honesta, mesmo nos dias mais difíceis. Todos os dias dei a cara no instagram e acreditem, muitas vezes não estava com paciência nenhuma. Muitas vezes liguei a câmara só para dizer que tive um dia de m****, que estava aborrecida, que o dia não tinha corrido bem. Porque acho que é também importante partilhar isto. Convenhamos, a vida não é cor-de-rosa e ninguém está durante 8 meses completamente feliz, nem em viagem. Porém, mesmo apesar do lado mais negro de uma viagem destas, continua sempre a valer a pena. Esta continua a ser a melhor experiência da minha vida.
Houve situações que eu não partilhei no instagram e que ninguém soube, até agora. E fi-lo apenas para proteger a minha família.  Especialmente a minha mãe que ao longo destes meses, mesmo sabendo que eu estou a realizar um sonho, contou os dias para eu voltar para casa. Muitas vezes me ligou dizendo que tinha sonhado com o meu regresso, que correu para o meu quarto para se certificar se havia ou não sido um sonho. Mãe é mãe e isto era o mínimo que eu lhe devia.
Estando já na reta final desta jornada partilho agora as más situações desta viagem que não contei em tempo real, da forma mais honesta possível. Os textos são longos, mas estão íntegros, tal e qual como foram escritos na altura em que aconteceram. Não fiz alterações.


 

Expulsa de um hostel

12 de Abril – Sengiggi, Indonésia

Cheguei há dois dias a Sengiggi, na ilha de Lombok, Indonésia, com intenção de renovar o meu visto aqui por mais um mês. Fiquei num hostel a 4 km do centro, literalmente no meio da selva. Havia um pequeno corte à esquerda, a partir da estrada principal, que 800 m depois me deixaria no hostel, passando por uma aldeia que havia sido completamente devastada no terramoto de Setembro.

No hostel estava então o Edgar, um tipo de Barcelona que tinha aberto o espaço há um ano e meio atrás com a namorada. Entretanto separaram-se e ela voltou para Espanha. Além dele, estava ainda um outro casal irlandês, hospedado num bungalow privado. Eu e eles eramos os únicos hóspedes. O Edgar tinha um aspeto estranho, mas nada que me fizesse suspeitar. Não julguei no momento. Entretanto apareceu lá o Zulu, um indonésio que falava bem inglês e que vivia lá na aldeia ao lado. Ele era guia turístico e todos os dias ia lá ao hostel falar com os hóspedes e oferecer o seu serviço. Foi com ele que aluguei uma scooter e me fiz à estrada rumo a Mataram, para estender o visto.

Nesse dia cheguei ao hostel por volta das 18h e não estava lá ninguém. Nem o tal casal, nem o Edgar. Assim que desço pela rampa com a mota vejo que o cão está solto e fico meia aflita. Não dava para voltar para trás, pelo menos rapidamente, e não havia ninguém para me ajudar. Tenho medo de cães, especialmente quando estou sozinha. O cão começou logo a ladrar para mim e veio na minha direção. Saí da mota o mais depressa que pude, mas não fui a tempo e o cão saltou-me em cima. Eu tinha uma garrafa de água na mão e pelos vistos o cão tinha uma panca qualquer com garrafas de água. Não cheguei a estacionar a mota e corri para o dormitório. Fiquei lá dentro 2h30 à espera que alguém chegasse, estava cheia de sede e já não tinha água. Por volta das 20h chegou então o casal e o Zulu e pedi-lhes ajuda. Eles trouxeram-me água e tentaram prender o cão, mas sem sucesso. O dono, o Edgar, nunca mais aparecia. O Zulu sentou-se comigo à porta do dormitório e ficou a fazer-me companhia até que o Edgar chegasse. Eu disse-lhe que não era preciso, já tinha água, já estava a ficar tarde, podia ir dormir. Mas ele insistiu e eu aceitei. Também ele tinha um pouco de medo do cão (muçulmanos, pelo menos desta zona, não podem tocar em cães e como não estão habituados têm um pouco de medo). Lá ficamos 1h30 a conversar, até que então chegou o Edgar. Expliquei-lhe o acontecimento e ele pediu desculpa pois aparentemente o cão destruiu a porta da sua casota. Eu aceitei e fui então dormir. Afinal, não tinha acontecido nada de grave. Se tivesse ficado por aí.

No dia seguinte fiz-me novamente à estrada até Mataram, para continuar o processo de extensão do visto e voltei ao hostel por volta das 17h. Assim que cheguei vi que o cão estava solto e que o Edgar estava lá. Perguntei-lhe se ele me podia ajudar a descer a rampa com a mota porque o piso estava molhado (tinha estado a chover) e porque tinha medo do cão. E foi aí que os problemas começaram. O Edgar, dono do hostel, começou literalmente aos gritos comigo, a perguntar-me porque é que eu não descia sozinha.

– Porque tenho medo. Pode ajudar-me?

– Não, não posso. Vais fazer isto e é já, anda lá minha menina. Disse ele, aos gritos para mim desde lá de baixo.

– Mas porque é que não me ajuda?

– Porque estas a ser ridícula, tens é de ter medo das pessoas, não dos cães. Tens medo ficas em casa, não vens para aqui. É desta que vais aprender. Anda lá, segue já à minha frente!

Ele estava a ser rude e agressivo e eu comecei a não gostar da situação.

– Então vou esperar pelo Zulu para me ajudar, ele está a caminho.

– Tudo bem.

E foi-se embora. O Zulu nunca mais chegava e eu desci a rampa de mota. O cão atirou-se para cima de mim e eu comecei a chorar. Não só pelo cão, mas também pela maneira como o dono estava a falar para mim. Só queria enfiar-me no dormitório e ficar lá fechada até ao dia seguinte para me ir embora. O Edgar apareceu novamente e começou a gritar comigo, cada vez mais agressivo.

– Não quero pessoas como tu no meu hostel. Põem-te já no c****** e rápido, tas-me a ouvir? Eu devolvo-te o dinheiro, mas não te quero aqui nem por mais 1 minuto. Pessoas como tu não valem nada.

Fiquei completamente estupefacta. O Zulu chegou ao hostel. Percebo que a situação pode acabar mal e fujo para o quarto para fazer a mala e ir-me embora. Ele estava completamente alterado, não sei se estava ou não bêbedo, mas estava a tornar-se cada vez mais agressivo, fazendo gestos com as mãos e andando de um lado para o outro enquanto me humilhava e me insultava como eu nunca tinha visto.

Fechei-me no quarto, a chorar que nem um bebé, enquanto fazia a mala o mais depressa que podia. O Zulu entrou no quarto e deu-me um abraço,

– Tem calma. Vai ficar tudo bem, eu não te deixo sozinha.

– Mas por que é que ele está a fazer isto? Fodass, se eu pudesse escolher não tinha medo de cães, isto não é algo assim tão mau. Por que é que ele me está a falar assim?

– Calma, ele é estupido às vezes, mas temos de ir embora rápido. Isto já acabou mal noutras vezes.

Fiz a mala em 5 minutos e fomos embora. Ainda pedi o meu dinheiro de volta ao Edgar, já que ele tinha dito que mo devolvia. Ainda ficou mais agressivo e disse que não me dava nem um cêntimo, para me pôr no c****** já. Assim fiz, saltei para cima da mota do Zulu e lá fomos. Paramos mais à frente, numa homestay e eu não parava de chorar. Estava em choque com o que tinha acontecido, estava completamente sozinha com as malas numa aldeia no meio do nada. O Zulo acalmou-me, deu-me água e fruta e ficou lá comigo o tempo todo. Deu-me a palavra dele de que não me deixaria sozinha nem por um segundo, que ficaria à porta do quarto toda a noite a fazer-me companhia se eu quisesse.

E foi aí que também aprendi uma grande lição. Eu não estava sozinha, estava com ele. Estas coisas podem acontecer a toda a gente e é certo que há pessoas más no mundo. Mas também é verdade que há muitas mais pessoas boas no mundo e que por cada situação má, aparece pelo menos uma pessoa boa para nos ajudar. O Zulu foi como um pai naquela noite e senti-me segura com ele. Abraçou-me muitas vezes e embora isto pareça uma atitude normal há que ver que ele é muçulmano e que, especialmente com mulheres, estas atitudes não são propriamente normais. Ainda assim, ele esteve lá para tudo. Nessa altura contou-me também que isto já tinha acontecido antes. Ao que parece ele batia na ex-namorada e foi por isso que ela se foi embora para Espanha. Já com uma outra cliente que também tinha medo de cães ele teve a mesma atitude, mas ainda foi mais longe, tendo chegado mesmo a tentar esgana-la contra a parede. Foi por isso que o Zulu me queria tirar dali o mais depressa possível. Com uma outra moça, ele chegou a prende-la a ela e ao cão no mesmo quarto. Enfim. Na altura perguntei-me porque raio nenhuma delas tinha deixado uma péssima review no Booking.

Sabia que nessa noite tinha de ligar à minha mãe, mas não queria contar-lhe o que se tinha passado, nem queria que ela me visse naquele estado. Então liguei a uma amiga minha a contar-lhe tudo, de forma a soltar toda a revolta e a acalmar-me, antes de ligar para a minha mãe. O Zulu fez questão de falar com ela, de lhe explicar o sucedido, e de lhe prometer que tomaria conta de mim. Ele estava a ser um anjo da guarda, não sei quantas vezes lhe agradeci por isso. Entretanto ele perguntou se eu não ia ligar ao meu namorado e se eu não queria que ele lhe explicasse o que tinha acontecido.

(Na noite anterior, enquanto esperamos pelo Edgar, o Zulu perguntou-me se não queria ir à praia com ele ver as estrelas. Por sim ou por não disse-lhe que tinha namorado e que me ia casar em Agosto, just in case. Continuou com algumas perguntas desconfortáveis, como por exemplo se em Portugal os casais permitiam um livre arbítrio para se envolverem com outras pessoas durante as férias, já que alguns turistas lhe tinham dito que isto acontecia nos países ocidentais. Disse-lhe que em Portugal isso era inadmissível e fugi ao assunto, mais uma vez, just in case. Também neste dia, depois de termos escapado do hostel, perguntou-me novamente se não queria ir até à praia descontrair).

Fiquei meia sem saber o que responder e pedi à minha amiga para o namorado dela, o Diogo, me ligar a fazer-se passar por meu namorado. E assim foi, ela explicou-lhe tudo e ele ligou-me. Por esta altura já estávamos no novo hotel, e eu estava a fazer o check-in. Foi aí que o Zulu me chamou e me perguntou se podia tomar banho no meu quarto … Fiquei sem saber o que responder … No momento em que ele me perguntou isso só me lembrei da conversa que tivemos no dia anterior sobre o terramoto que afetou Lombok no mês de Setembro. A casa dele tinha sido completamente destruída e ele chegou a viver um mês e meio num campo de refugiados. Chegou-me a mostrar fotografias da casa destruída e assim que ele me perguntou se podia tomar banho, essa imagem não me saía da cabeça e disse-lhe que sim. Ele estava a ser um anjo para mim, talvez não tivesse sítio para tomar banho, sei lá …

Mas não estava confortável com isso e estava também a começar a achar que talvez o Zulu tivesse algum interesse secundário. Tinha a cabeça a pesar uma tonelada, só queria um quarto seguro para poder tomer um banho e descansar. O Zulu tinha sido a minha salvação naquela noite mas com tantas perguntas e convites inusitados eu já não sabia em quem é que podia confiar. No momento seguinte liga-me o Diogo, que se iria fazer passar por meu namorado. Ele já estava a par de tudo, inclusive do pedido de banho. O Zulu contou tudo o que tinha acontecido ao Diogo, e o Diogo disse-lhe apenas para me deixar sozinha no quarto a relaxar, só para se certificar que ele não iria lá para dentro comigo. Enquanto eles conversavam levei as malas para o quarto. Voltei à receção quando a chamada terminou, agradeci ao Zulu por tudo o que fez, e fui para o quarto. Fiz de conta que me tinha esquecido da situação do banho. Ele também não insistiu.

Assim que entrei no quarto, tranquei a porta e tomei um banho. Nesta altura já estava completamente calma. Pedi um chá com torradas e liguei à minha mãe. O Zulu continuou a ligar-me toda a noite e a enviar mensagens a perguntar-me qual era o número do meu quarto. Não respondi. No dia seguinte apanhei o barco rumo à ilha das Flores.

Não sei se o Zulu tinha ou não segundas intenções. Por um lado, acredito que não pois há que saber enquadrar estas situações. Se por um lado, para nós ocidentais, nos parece inusitado pedir a um estranho para tomar banho num quarto do hotel, por outro lado, aqui na Ásia, o conceito de individualidade tal como o conhecemos não existe de todo. Além disso, toda a preocupação e mesmo os convites para ir à praia poderiam ser inofensivos, e serem apenas tentativas de me fazer sentir melhor. Os muçulmanos são assim mesmo. Segundo a minha experiência “ajudam até demais”, fazendo os possíveis para nos verem bem. Ou não. Ou podia não ser nada disto. Ou podia ser outra coisa. Nunca vou saber. Infelizmente, estas situações desconfortáveis são a pior parte de viajar sozinha enquanto mulher.

6 comentários

  1. Patrícia em 10 de Junho de 2019 às 15:58

    Sem palavras. Esse hostel tem de ser divulgado, acusado às autoridades e encerrado.

  2. Mariana em 10 de Junho de 2019 às 15:59

    Acho que tiveste a melhor atitude em relação ao Zulu. Soube de uma história de um colega, que, enquanto namorava com um muçulmano, era tudo incrível. O muçulmano era retratado como o melhor namorado que alguma vez teve. Até que se casaram e o muçulmano virou o bico ao prego. Tornou-se numa pessoa muito agressiva e infelizmente a mulher já vivia com ele na Arábia, portanto junto com as outras mulheres dele. Tiveram um filho e a mulher demorou anos até poder voltar a Portugal para ver a sua família…. Tenho respeito pelos muçulmanos, mas não me fio nas palavras deles 🙂

  3. Joana Moreira em 10 de Junho de 2019 às 16:11

    Patricia, eu acompanhei e continuo a acompanhar a tua viagem… E fico completamente rendida ao facto de teres tanta coragem e em momentos como esses um sangue frio para superar e continuar… Sem dúvida alguma és uma menina muito especial beijinhos e aproveita cada momento que falta… Pois acredito que vais ter saudades…

  4. Cátia Moreira em 10 de Junho de 2019 às 16:34

    Realmente não se entende pq a rapariga anterior a ti não fez queixa, ou até mesmo a ex-namorada evitava que mais mulheres passassem pelo mesmo!!! E concordo que ns redes sociais td possa parecer um mar de rosas qd na realidade não está a ser em algumas partes. Mas em 8meses mesmo assim não tiveste muitas complicações

  5. Elisabete em 10 de Junho de 2019 às 18:26

    Oh meu Deus !!! Estou chocada !!!! Ainda bem que acabou bem mas por favor tens que passar a palavra a todos !! Essas faltas de respeito não podem continuar assim ! Mais uma vez tenho o meu coração !!! Mas ao mesmo tempo mais aliviada ! Mas revolta me essas situações porque não estava aí para te apoiar !! Enfim ! Faltam 4 dias para estar contigo e vou te apertar tanto tanto tanto que não te vou deixar fugir !!!! Saudades !!! Bjs e até já
    Mãe !

  6. Ana S em 11 de Junho de 2019 às 07:42

    Ai minha nossa! Quase chorava de aflição ao ler isto, que homem mais horrível e ainda por cima dono de um estabelecimento!

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